Dias de FAB, dias de glória – Parte 2

Depois desses 5 meses eu já tinha desistido. A prova do Colégio Naval era em Julho, no último dia do mês e último das férias na escola. Essa foi talvez uma das épocas mais fodas em muito tempo. Foram as férias inteiras, duas semanas inteiras, trabalhando e estudando. Acordava lá pelas 7 da manhã, trabalhava até onze horas, onze e meia, meio dia… Depois voltava às duas até seis, sete, oito… Lembro que no final de um dia meu pai sentou pra conversar:

– É, meu filho, é assim mesmo… Eu falo pra você, estuda… Estuda que o negócio é feio… – Fez uma pausa breve, depois continuou, num resmungo, como que imitando a minha resposta típica: -“Aaai, que horas que eu vou estudar, só trabalho…”
– E não é?
– Na sua idade comigo era pior… Eu trabalhava pra ajudar a sua avó, em casa… Chegava morto, tentava estudar… Mas vai lá, você não tem tantas preocupações; chega em casa, toma um banho, e vai estudar.

É lógico que fiquei puto. Po, ainda tenho que estudar? Vou confessar, já tinha desistido ali. Pra mim era muito fácil, continuar nessa, aproveitar o tempo de sobra pra descansar. Mas e o futuro? O futuro que se dane! É muito mais fácil eu crescer frustrado, sem nada, e passar a vida culpando a construção, culpando meu pai. Foi então que naquele dia em específico, fiquei das 9 da noite até as 3 da madrugada estudando… Via as provas anteriores, sonhava, imaginava…

O curso que eu estava praticamente faliu. O dono era um professor, o Capitão Corta. O baixinho era foda, dava matemática, química e física. Ele tinha uma mulher MUITO gostosa (perdão meninas). Enfim, casados, eis que se separam. O Corta era bem admirado pelos alunos; ressentido, com dor de corno, foi dar aula em outro cursinho militar. Levou 80% dos alunos com ele. A ex-mulher ficou com o curso às moscas, e foi assim que o outro curso quase faliu. Aproveitei a oportunidade pra pedir um desconto, e sair do preparatorio pra AFA e ir pro da EPCAr, que era mais caro. Eles não abaixaram o preço, e perderam mais um aluno.

Mudei de curso então. Dessa vez, no lugar “certo”, me preparando pra EPCAr e CN. Bem mais barato. No entanto, era muito fraco, principalmente na parte de matemática. Era uma bagunça: na mesma sala, gente se preparando pra escola militar, concurso público, PM… Mas eu me safei bem. Tirava dúvidas com o professor, trazia coisas de casa, perguntava; logo, recebia um apoio extra.

A prova do CN chegou. Viajei pra Corumbá, no último dia das férias. Catástrofe. De 20, acertei 5 questões. Absolutamente TODAS no chute. A frustração foi inevitável. A prova da EPCAr estava por vir, eu continuava no curso. Mas eu era míope.

Ficou decidido assim: Eu faria a prova da EPCAr apenas… Por fazer. Não ia entrar mesmo. No ano que vem tentaria a Academia da Força Aérea, num curso melhor. Mas pra entrar na AFA, também não podia ser míope. Então assim que passasse na AFA, em 2012 talvez, operaria o olho. Logo eu fui procurar um médico. Dra. Áisa Lani. Desculpem meu palavreado, mas essa mulher pra mim é uma vaca:

– Então doutora, eu passei num concurso da Força Aérea (nem tinha passado em nada), e queria operar essa miopia…
– Não. De jeito nenhum. Imagina, que absurdo! Você sabe que a miopia volta, e seria muito pior, você ser desligado no futuro. Eu não iria dormir com a consciência tranquila sabendo que operei alguém assim!
– Mas posso operar de novo, lá dentro é mais difícil de sair, eu só quero operar pra entrar!
– De maneira alguma. Operar 50 vezes? Ok, mas será que você tem córnea pra isso, que seu olho aguenta? Me desculpe.

Na despedida:
– Não tem jeito mesmo. Só com 18 anos e olhe lá. Sinto muito, procura outra carreira, aviação não é pra você.

“Procure outra carreira.” “Procure outra carreira”. Naquele dia a frustração foi imensa. Desejei a morte da sétima geração dessa mulher. Ora, procurar outra carreira! Não é assim não!

O grande dia chegou. Prova da Epeca. Cheguei bem tranquilo. Embora tivesse em mente que mesmo que passasse não entraria, dei o meu melhor. Me dediquei. Fiz o possível. Saí da prova, o último. Pra comemorar a libertação do cursinho: rebocar um muro com o papai, na mesma tarde daquele dia :D

As coisas não estavam fáceis. Depois que saiu o gabarito, 23 questões, de 40. “Não tenho chance.” Deixei de lado. Em casa, ia tudo cada vez pior. Meu pai agora jogava na cara que enquanto eu estudava, ele e meu irmão trabalhavam, ralavam. Brigávamos quase todo dia. Nem o cumprimentava mais, fugia. Agora, sem cursinho, era da escola direto pra casa, depois obra, como castigo. “Respondão! Desobediente! Egoísta!”. Logo eu. Logo eu. Que ajudava o quanto podia em casa, que deixava de estudar o meu pra ajudar a lição da irmãzinha. Que atravessava 22 km de bicicleta de casa pro cursinho, pra economizar passagem de ônibus. Eu não podia jogar na cara. Seria… Expulso. O jeito era estudar, pra sumir, conquistar a independência. Mais um ano aqui estava por vir… Eis que….

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2 Responses to “Dias de FAB, dias de glória – Parte 2”


  1. 1 boom! novembro 4, 2014 às 1:50 am

    caraca brother, tu é guerreiro. Parabéns por tudo ae…


  1. 1 APTO. Fight days, FAB days for flight days – Parte 3 « Negologia Trackback em dezembro 27, 2011 às 6:25 pm

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