Pra não dizer que não falei do mistério da adaptação

As lembranças de quando enfrentei os desafios do  exame de admissão ainda pulsam em minha memória. Os sentimentos naquela época se embaraçavam: era uma mistura de adrenalina, e frio na barriga. O medo do desconhecido, e a curiosidade de querer conquistá-lo, se confrontavam. Tudo mudou quando cheguei à Barbacena, e entre as montanhas, contemplei a fachada da Escola Preparatória de Cadetes do Ar. Ali, começou a minha jornada. A concretização do meu sonho.

Embora às vezes eu questione a veracidade das imagens e informações contidas no vídeo, no geral, É TUDO VERDADE. Ano passado estava eu, aqui, todo-todo. Corrigiria e iria além, arriscando um “os sentimentos naquela época se embaraçavam: era uma mistura de cabacice e vibração, o medo de não adaptar-me, e a curiosidade de arriscar tanta coisa”. E, para a glória geral da nação, deu tudo certo. Agora são só agradecimentos e momentos que ficam na memória. Momentos bons ou ruins.

Pra quem não sabe, vamos a definição de “mistério”, contida no título deste post:

Mistério é o ato ou efeito de pagar mistério. O mistério está presente no interior de todo aluno. É previsto em regulamento interno próprio da EPCAr, o RMISTER: Regulamento de Mistério dos Alunos da EPCAr. A grosso modo, o mistério é qualquer atitude que exalte o aluno, suas habilidades e abnegações, seus méritos. Um exemplo de mistério do Aluno é a sua própria farda. Outro exemplo é este texto, embora o objetivo principal não seja este.

viva o mistério

viva o mistério

Pô, é lógico que não existe esse regulamento, mas valeu a brincadeira.

Queria fazer um “compacto” desde a adaptação até o fim desse ano. Provavelmente vai ser mais uma série de posts. O fato é que eu considero esse o mais importante de todos. Ainda me lembro do quão cedo eu acordava, ficava fazendo nada, mas com um sorriso de orelha a orelha. Ficava na internet pela manhã, e só via vídeos de aviação, EPCAR, AFA… E lia tudo o que podia. Inclusive um blog de um aluno que passou pra turma de 2010 mas, infelizmente, foi desligado tempos mais tarde por motivos de saúde. Ele contava como estava sendo sua adaptação à Escola, um pouco da rotina. Achei a ideia muito interessante e útil – ainda que as experiências de cada um como candidato, estagiário e aluno nunca sejam iguais. Cada um vive um momento com mais vivacidade que outros. Todos entramos vibrões, felizes. O que faz do aluno um “mantenedor-do-brilho-no-olhar” é a maneira como encara a escola, a rotina, as amizades… Mas sobretudo, como não perde o foco.

subindo as ladêra

subindo as ladêra

menino BUNITO

menino BUNITO

Barbacena. 5 fev, 2012.

Chegamos muito tarde. 3:30 da madrugada. A apresentação na escola era naquele mesmo dia, das 8 às 12 h (ou algo assim). Dormimos no hotel. Eu estava inquieto, mas arrisquei um cochilo breve. Acordamos às 7 h. Irritado por termos chegado em cima da hora, consequência da falta de planejamento, mas alegre. Desci pra tomar o café da manhã.  Encontrei o Schinca, cumpanhero que viria se tornar um dos melhores amigos. Tomei meu café, tava cheio de “estagiários” lá. A EPCAr ficava a pouco mais de 200 m do hotel. Subi pro quarto, vesti o “bichoforme” – calça jeans azul bem barata, camiseta e tênis brancos. Peguei a mala, e rumei em direção à entrada da Escola.

Chegando lá, mais ou menos às 9 e meia da manhã (meu pai foi comprar um chip da TIM de lá e um cadeado, o que me rendeu uns 30 minutos em pé em frente ao portão da guarda), com uma mala enorme e esperando ele voltar pra podermos entrar na Escola. Entramos. Subindo a ladeira. Alcanço o Pátio da Bandeira, visão magnífica: um pátio aberto com um mastro para a Bandeira Nacional no centro. Um homem faz sinal, quer uma entrevista: “E aí, quais são as expectativas pra hoje, pro curso?” Contagiado pela alegria do momento, mas ainda abobado e envergonhado, solto um “as melhores, começar bem e…” “E pro futuro?” “Tornar-me um oficial aviador”. Continuo. O olhar curioso não pára. Meu olho mal fica parado, fito em um ponto. Chego ao Pátio da Rodoviária. Lá uma comissão aguarda para atender aos estagiários e dá-los apoio e orientações. Aproximo-me da mesa e um homem confere meu nome, identidade. Me entrega um papel: “170”. Seu nome de guerra é Barros. Bem-vindo.

Um aluno então se dirige a mim, pega a minha mala e me guia até o alojamento. Seria uns dois anos mais velho que eu. Ou menos. Minha altura. Meu pai fica no pátio. Ainda nervoso, desta vez já quase tremendo, meu olhar de curiosidade soma-se a uma expressão surpresa, ansiosa e um pouco assustada. Entro no alojamento, chego ao meu armário. O então aluno do terceiro ano (mais tarde eu descobriria que é um “adaptador”) joga a minha mala no chão. O aluno então fala comigo, sua expressão muda quase que completamente. Extremamente sério, mas sem gritar, ele começa a minha adaptação:

– Barros, a partir de agora, é ‘não senhor’, ‘sim senhor’ ou ‘quero ir embora’. Entendido?
– Não s… Quer d… SIM SENHOR. Gaguejei.
– Quando alguém falar com você, você vai ficar nessa posição: sentido. Dedos colados à coxa, pés juntos e pontas formando um ângulo de 45º. Depois disso, vai gritar o seu nome. Vai tenta aí. (Ele demonstrava enquanto ia falando). Barros! Gritou.
– Barros! –  Fiz o que ele havia me ensinado.
– A postura tá boa… Cola essa mão. E grita mais alto. BARROS! – me chamou.
– BARROS! Gritei.
– Ótimo, venha aqui. Olha, essa é a sua cama. Pegue essa folha. Leia bem alto e eu vou conferindo.
– Ler tudo?
– Sim.- “Comando da Aeronáu…”
– NÃO! O cabeçalho não! Os itens!
– “Tavesseiro, 1.”
– Aqui.
– “Fronha, 2”
– 2.
– “Lençol branco, 2”
– 1, 2.
– “Colcha branca, 2”
– Estão aqui.
– “Manta azul, 2”
– Pronto.

Conferidos os itens que estavam sobre a minha cama de ferro cinza, com um colchão azul, fomos até o meu armário.

– Este é o seu armário. Coloca tudo o que tem pra colocar aí e desce. Não esquece de trancar! Rápido!
– Sim senho…

Comecei a organizar o meu armário. Os olhos arregalados e a pele fria, nervosismo escorrendo. O aluno não era meu amiguinho, tampouco me falaria das grandes experiências que teve na FAB, tudo o que a Escola podia oferecer… Não, pelo menos não nas duas semanas que viriam. Arrumando as coisas. Jogo os sabonetes na gaveta, talco, shampoo, onde eu guardo as camisetas? Vou ter onde passar roupa? Tênis de corrida, cabe aqui. Protetor solar. Disseram que ia usar bastante, o sol aqui é forte nessa época do ano. Meu Deus do céu, no que eu me meti? Pensei que seria diferente. Que droga, eu não trouxe cabides? Os documentos, guardo onde? Posso usar o celular? Ih, caramba, não sei onde guardei os chinelos. Depois eu arrumo melhor, por hora é só coloc
– BARROS!

Parei por um instante. Levantei num susto.
– BARROS! – Mais um grito. Tomei a posição de “sentido”, gritei meu nome de guerra, de maneira idêntica ao meu interlocutor. De repente, ele aparece.
– Cadê voc… Você ainda não terminou de arrumar??? Tá moroso demais, hein Barros!!! Cadê sua cobertura? Por quê tá sem a cobertura??
– Senhor… É que… Aqui é um local coberto…
Meu primo já havia me dado umas dicas (bizus) de adaptação. “Nunca esquecer do boné, que é chamado de cobertura. Em lugar fechado não precisa, mas se for ao ar livre, sempre de cobertura. Eles cobram isso e dá muita merda esquecer.”
O aluno parecia surpreso, mal cheguei e já estava questionando “ordens” (chamamos isso de ponderar; o guerreiro que faz muito isso é chamado carinhosamente de “ponderão”. Não é de se desejar esse codinome.)
– Tá… Mas nós vamos sair, coloca a cobertura, rápido!

Como esqueci meu armário e mala abertos, fiquei preocupado com o que podia acontecer. Não sabia pra onde estávamos indo. Sabia que não iria avisá-lo sobre o armário aberto. Medo de levar esporro. Quase paranoia. Ouvi histórias de adaptações dos anos anteriores, onde os adaptadores simplesmente tiravam tudo de quem esquecia o armário aberto. Jogavam tudo pra fora, amarravam camisetas com nós desgraçadamente desgraçados. Amassavam as roupas, não deixavam nada  no armário. Felizmente, eu pude voltar rapidamente pro alojamento pra terminar de arrumar a minha mala. E tudo continuava lá, intacto.

pátio da rodô

pátio da rodô

Uma das coisas mais marcantes na adaptação é a memória (ou a falta dela). Muitos se perguntam hoje ainda como passaram aqueles dias, não se lembram de muita coisa. É assim que me sinto agora, tentando preencher as lacunas com alguma história que ficou esquecida. Talvez a falta de sono, a intensa atividade física, a eterna correria e saltitação, somadas aos esporros e gritaria de alunos adaptadores, tenha contribuído para ficarmos no automático. Não pensávamos direito. Estávamos no automático, só executávamos. Éramos liberados por volta das 21, até 22 horas em alguns dias. Os que conseguiam dormir, o faziam durante no máximo 4 horas. 6 da manhã todos prontos, alguns dias às 5 e 30 (a chamada pré-alvorada). Tínhamos de tomar banho gelado (os que tomavam), passar a camiseta branca fazendo um vinco na manga (os que passavam), fazer a barba (os que faziam), arrumar a cama (os que arrumavam)… Horas de sono valiam ouro. Algumas dias eu coloquei uma coberta no chão, de frente ao meu armário, num vão que ele fazia com a parede, e dormi ali mesmo, para não desarrumar a cama. Nunca deixei de tomar um banho (mesmo que às 3 horas da manhã, numa água extremamente gelada). Além disso, o tênis branco devia estar sempre limpo, correndo o risco de ficar marcado como o “errado”. Andando sempre de cabeça baixa, se apresentando, sempre correndo ou saltitando.

Sonema...

Sonema…

Lembro que no primeiro dia de adaptação foi isso. Depois que todos haviam chegado, os bichos do futuro esquadrão Ares (bando de moleque criado a leite com pera, criado com a vovó, camisetinha Hollister e bonezinho GAP) entraram em forma pela primeira vez, mesmo sem saber que diabos era entrar em forma. Mexendo, olhando pro lado, se duvidar até conversando (considerando o Lazzarin). Fomos até o cinema. Nesse momentos os pais ainda podiam ficar lá com a gente. No cinema tivemos mais umas instruções de como funcionava a escola e algumas palavras do comandante. Dados mais alguns avisos, por volta das 17h houve a despedida. Rapaz, foi um momento duro aquele. Eles tinham passado alguns vídeos antes, uma animação em que o filho do Pateta ia morar em outra cidade pra fazer faculdade enquanto o pobre Pateta ficava sozinho em casa, triste e melancólico. A chamada “síndrome do ninho vazio”, ou algo assim. Com todos devidamente emocionados, foi anunciada a despedida. Permaneceríamos no cinema para mais algumas instruções, e os pais deveriam ir embora. E aí foi aquele choro geral. Como meus pais não estavam lá, eu não olhava para os demais se despedindo, e fiquei conversando com o estagiário que tava do meu lado. Mas foi difícil.

Começava oficialmente o EAD!

RÓTULO: Pra quem acha que “ah, tá muito detalhado esse post, vai tirar o efeito surpresa da adaptação”, não concordo. Acho que o que cada um tem suas próprias emoções, sua própria maneira de encarar a escola e tudo o que acontece lá. Além disso, todo ano mudam as coisas, um ano nunca é igual ao outro. Por exemplo, meu primo me encheu de bizus antes de eu ir pra BQ, na hora foram poucas as coisas que eu lembrei. Na hora, na adrenalina, vai tudo pro esquecimento.

Como diziam no Liga da Justiça: “TO BE CONTINUED”

Link para a continuação, Parte dois aqui

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10 Responses to “Pra não dizer que não falei do mistério da adaptação”


  1. 1 Joyce Gomes fevereiro 14, 2017 às 10:31 pm

    Adorei! nesse amo de 2017 farei o concurso para ingresso na EPCAr estou ansiosa e confiante ao mesmo tempo, amei suas palavras, simples porém com um enorme sentido!

  2. 3 Yasmin Rocha janeiro 10, 2016 às 7:45 pm

    Olha eu só vou comentar, porque sou de Campo Grande kkk
    Brincadeira, comento pois adorei e só me fez vibrar mais. Ainda bem que esse é o primeiro e tem muito mais para ser lido. Muito obrigada pelos bizu. Parabéns pelas palavras simples que nos envolve e nos demonstra o amor que sente pelo que faz. E SIM!! Vai ter comentários meus em todos os outros textos.

  3. 4 Bacana maio 16, 2013 às 8:29 pm

    Já que é “di grátis”….”Vamu” escrever.
    Barros, meu jovem pré-cadete, gostei muito do seu texto, nada enfadonho, vc vai escrever para “Senta Púa” – heheh …. sou militar do EB, estava no Google procurando um outro assunto e, de repente, me veio seu blog, dei uma lida e adorei.
    Servi em CG e espero voltar para a “nossa” cidade morena, me identifiquei logo com vc, primeiro que há 25 anos atrás estava me preparando para sua Escola, essa aí de Barbacena, apesar de não me classificar, foi um tempo muito bom (no RJ – 1988 meus 14/15 anos); depois, ao saber q vc trabalhava c/ sei pai, legal, vontade pura, imagino q seu pai, fora ou é, empreiteiro em CG, tem muito lá, comprei uma casa com o tal de “Miro” – não recomendo ! hehehe (espero q não seja ele) – heheh
    Mas, voltando, gostei muito da frase: “sentindo o que antes eu só tinha lido”, pura verdade, atemporal isso, esse sentimento, planos, apenas sonhos, e se transformam em realidade, faz bastante tempo que não lia nada dessa minha época de menino.
    Rapaz, boa sorte no CEMAL e depois na AFA .
    Quem sabe meu filho vai ser seu bicho ainda, vai prestar esse ano (2013), estuda aki em BH (CMBH) e se ele e “Ele” quiserem……..quem sabe ?!
    FUIIII

    • 5 Fonseca maio 21, 2013 às 3:28 am

      Po, obrigado pelo carinho rapaz. É muito legal ver o carinho que todos os que passaram por essa escola ainda tem por ela… É o que dizem, enquanto estamos aqui, tendemos a reclamar… Mais tarde, sentimos falta de tudo isso. Obrigado mais uma vez pela sorte no CEMAL, vou precisar… Grande abraço!

  4. 6 meira dezembro 31, 2012 às 4:16 pm

    Quantas coisa eu nem lembrava mais, rsrs
    mto bom !

  5. 7 Saulo Lopo dezembro 28, 2012 às 5:25 pm

    Valeu Barros, curti pra caramba seu texto!!

  6. 8 Danton dezembro 27, 2012 às 6:19 pm

    Parabéns. É a única palavra cabível diante desses relatos. Li as duas partes e percebi que você discorre do assunto demonstrando gostar realmente de tudo o que fez e que ainda faz !


  1. 1 www.senalcolombia.tv Trackback em janeiro 26, 2016 às 10:26 am
  2. 2 Alojar site Trackback em janeiro 17, 2016 às 5:29 am

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